terça-feira, 9 de outubro de 2012

Diário de um apaixonado - Capítulo II- O Abraço



      A noite dava os seus primeiros passos, António tinha terminado o jantar e pela sua cabeça projetava-se o que seria o seu serão. Entre uma noite de cinema em casa ou o sair para um simples café, não encontrava planos que o satisfizessem. Vou sair! O pensamento ganhou forma e sem que tivesse tempo para o analisar, já pegava num casaco de meia estação- afinal de contas já estávamos nas noites de maio- e saiu.
Vou sair, mas para onde?!... António obviamente não tinha planeado para aquela sexta feira uma saída e apenas seguia os seus passos. A sua cabeça tentava acompanhar a sua decisão. Entrou dentro do carro e arrancou. Com destino ainda incerto foi vagueando e serpenteando a estrada que o conduzia. Sem ideia do número de quilómetros percorridos chegou ao local. Era familiar, já tinha estado naquele espaço em outras ocasiões com amigos.
Entrou, estava bem composto, uma pequena multidão divertia-se e preenchia o local. Ao fundo uma voz tentava cantar uma música e ao seu redor ninguém dava a importância para a desafinação. António dirigiu-se ao bar pediu qualquer coisa para beber e avançou até junto de alguém que conhecia. Lançou um olhar em redor observando a multidão procurando, no meio de tanta gente, caras conhecidas. Pequenos miúdos e miúdas que agora se tornavam pré-adolescentes e jovens. Estou a ficar velho para sair à noite, pensou sem parar o seu olhar. Percorreu a sala ao seu redor e de forma inevitável o seu olhar voltou a um ponto onde tinha passado. Ao som da música desalinhada longos cabelos pretos agitavam-se refletindo o brilho que as luzes produziam. 
- Quem é aquela rapariga?- perguntou ao Luís.
      O Luís era um grande amigo de António, ainda que de eras diferentes, os dois eram cúmplices de conversas e brincadeiras.
- Aquela é a Maria, porquê?- retorquiu o Luís.
António absorveu aquele nome, Maria, mas nem adiantou mais a conversa. As músicas sucediam-se a um bom ritmo, a desafinação continuava e curiosamente os negros cabelos estavam agora sentados, observando-o. Ele não tinha acesso ao rosto da rapariga, apenas os seus cabelos saciavam o seu olhar.
- Queres tomar alguma coisa?- perguntou o Luís.
- Não, estou bem assim! Hoje não estou com espírito de beber muito.
Enquanto o Luís se dirigia ao balcão, António foi cumprimentar o responsável pelo karaoke. Também ele amigo de longa de data e que fazia da diversão noturna uma das suas formas de ganhar a vida. De seguida, regressou à mesa onde estava e Luís já tinha regressado também. Os seus olhos regressaram aos cabelos negros, ondulando como que enfeitiçando António.
- Olha lá, para de comer a rapariga com os olhos! Queres que te apresente?
- Achas Luís, estou a olhar para tanto lado, que exagerado que tu és.
A partir daquele momento tinha que ter mais cuidado e não dar tanto nas vistas. Tinha sido uma boa escolha sair de casa e animar um pouco a noite. António sentia agora vontade de sorrir, mesmo que para tal não tivesse ainda explicação.
Quando regressava da casa de banho, observou que Luís se dirigiu a Maria e estava agora a falar com ela. António sentou-se na mesa onde tinha estado toda a noite. O que lhe estará a dizer? Interrogava-se a cada sorriso que Luís e Maria partilhavam. Numa das ocasiões em que os observava, Maria dirigiu o seu olhar para a mesa onde António estava sentado. Os seus olhos brilhavam mais que as luzes que iluminavam a noite. Foi um breve instante, e voltou à conversa com as amigas, enquanto Luís regressava para junto do seu amigo.
- Então, o que é que foste fazer? Eu não te disse que não queria conhecer a rapariga!
- Eu fui cumprimentar uma amiga. O que é que pensaste?- respondeu o Luís com  um sorriso disfarçado nos lábios.
- Uhm! De certeza, é que ela há pouco olhou para mim depois de algo que lhe disseste.
- Aí que o menino está convencido, tá, tá!
António permanecia intrigado, não queria dar mais bandeira e por isso decidiu abandonar a conversa. Enquanto a sua cabeça matutava ainda no assunto, falava com Luís sobre o fim de semana desportivo que se aproximava. Apesar de grandes amigos, os seus corações torciam por clubes bem distintos e rivais! Nesse fim de semana iam exatamente jogar um contra o outro, pelo que o assunto de conversa animou e prolongou-se por largo período de tempo.
O animador do karoake já tinha passado a Dj da noite e a certa altura anuncia.
- Esta é a última música da noite!
A multidão mostra o seu desagrado, mas aproveita é para curtir o som. A música termina e os dois amigos ainda na conversa. António levantou-se.
- Então onde é que já vais?- perguntou o Luís.
- Espera um pouco que volto já, vou buscar o casaco que deixei com o Carlos.
António foi então ter com o Dj e pediu-lhe o seu casaco. Quando se virou na direção da mesa, António nem queria acreditar, Maria tinha-se juntado a Luís e estavam os dois na mesa à espera dele. Discretamente, deu uma volta um pouco por mais longe, mas sempre com o olhar fixo na mesa. Por fim chegou junto dos dois.
- Então! Estava a ver que ias até à China antes de vires para a mesa!- exclamou a Maria.
António sentiu o seu rosto corar, ele observava a mesa mas também estava a ser observado.
- Eu?!- disse tentando disfarçar.
- Sim, tu. 
- Fui apenas buscar o casaco e agora até estava para me ir embora.
- Já?!
Sem se aperceberem ou de forma propositada os dois dialogavam sem que mais ninguém ao seu redor existisse. Olhos e palavras apenas tinham um destinatário e mesmo no meio de tanto ruído e confusão eles nunca se perdiam. O tempo passava e o local outrora cheio estava agora quase despido.
- Hei! Importam-se que mais alguém converse também!?- inquiriu o Luís num tom bem disposto e descontraído.
Os dois pareciam nem ter ouvido o amigo comum. A sua conversa já durava à um pouco e já tinha viajado quase até aos confins do universo e regressado, tal a panóplia de temas que já tinham abordado.
- Nós?! Então estamos todos aqui a conversar.
- Aí sim, Sr. António! vocês estão a conversar e nós parece que nem estamos aqui - respondeu o Luís agora um pouco mais sério nas suas palavras.
António, parou por um instante e sentiu os seus pés de novo a poisarem em terra firme. O que estava o Luís para ali a dizer?!... então não estavam ali todos a conversar normalmente?!... António nem se tinha apercebido que ele e Maria se tinha isolado no meio da multidão e tinha viajado nos seus diálogos de forma a que todos os outros ficaram em terra e apenas eles tinha descolado com destino incerto.
- Pessoal tá na hora de fechar, vão ter que sair!- avisou, pedindo que se retirassem o João, o dono do bar.
Passo atrás de passo António e Maria continuaram a dialogar, subiram a escadaria e já junto à estrada deram conta que os seus carros estavam em locais opostos.
- Tenho o carro ali!- disse Maria.
- O meu está ali.- retorquiu o António apontado a direção oposta.
- Então temos que nos despedir!- exclamou Maria.
Aquelas palavras quebraram todo o encanto da noite. Os olhos de Maria e António tocaram-se como que desejando continuarem fixos um no outro. Sem qualquer outro gesto e quase sem se aperceberem os dois abraçaram-se. Os seus corpos encaixaram de forma perfeita e única num abraço que os levou a viajar novamente. O tempo parou naquele instante.
- Maria, vamos?!- perguntava com um tom um pouco impaciente a Ana.
- É verdade, eu sou a Maria.
- Sim eu sei, eu sou o António.
- Também já sabia!
Sem necessidade de mais apresentações e sem mais palavras, mas de olhar fixo um no outro os dois corpos afastaram-se. O silêncio imperou no momento. Os passos de ambos encaminhavam-nos para os seus veículos e os seus pensamentos pareciam ainda estar de mãos dadas, como que continuando a sua conversa privada.
António regressou a casa pelo mesmo caminho. Chegou à porta e pensou, já aqui estou!? O seu pensamento e o seu corpo estavam ainda parados no abraço de Maria e na forma perfeita como os seus corpos se haviam completado, depois das suas mentes e pensamentos se terem conhecido.

(continua)

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