quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Diário de um apaixonado - capítulo III - O Jantar





            Os olhos abriram sem preocupação ou pressa, António sabia que era sábado e como tal a correria de todas as manhãs não era necessária. Contudo este também não era um sábado normal, havia uma grande responsabilidade e vontade pela frente. Naquele dia ia cozinhar, como sempre o fazia, mas desta vez não era apenas para si.
            Já com o corpo desperto para o novo dia, saiu de casa era tempo de ir às compras. Por onde começar?!... Talvez primeiro devesse decidir a ementa para o jantar, mas António tinha os pensamentos turvados pelo desejo de ser bem sucedido e como tal apenas se dirigiu ao talho. Ficou em frente da montra observando a carne vezes sem conta, parecia hipnotizado ou esperando que algum pedaço lhe dissesse leva-me a mim.
- Manel, arranja-me este naco de carne!- pediu António, acrescentando- apara-me esse bocado porque é para fazer um assado.
            Manel era o dono do talho onde António habitualmente ia buscar os seus produtos. Conhecia o dono desde os tempos de criança em que ele ia vender a carne aos seus avós. Havia ali uma relação de confiança que ambos respeitavam e queriam manter.
- Então hoje vai haver prato especial?!...- retorquiu Manel ao pedido de António. Enquanto isso tratava cuidadosamente da carne para o seu cliente, mas acima de tudo, para o seu amigo.
- Hoje vou ter um jantar que quero muito que corra muito bem!- e mais não disse António. Manel também não questionou mais nada apenas deu o seu melhor para ajudar o seu amigo.
- Está bom assim?
- Sim, parece bem.
- Precisas de mais alguma coisa?
- Não, –disse António sorrindo- de ti apenas precisava da carne.
            Antes de ir para casa tinha ainda mais um destino. Eram precisos legumes frescos. Dissessem o que as pessoas dissessem, António sempre que precisava de legumes frescos, era no mercado que ele confiava.
- Então freguês, o que precisa hoje?
            António observava os produtos expostos e ia andando em torno da banca da vendedora, muito lentamente e atento a todos os pormenores.
- Então o que vai ser?
            A senhora insistia, mas para António não havia qualquer pressa.
- Bom dia, olhe quero uns brócolos, fresquinhos!
- Então aqui na banca da Cristina todos os produtos são frescos!
            António pegou no saco e suspirou. Estavam comprados os condimentos necessários para o prato que imaginou para o jantar. Era tempo de ir até casa e tratar dos temperos da carne.
            Mesmo sem perceber ainda a razão, António tinha a sensação que lhe faltava algo para essa noite que se ia aproximando. Deu voltas no seu pensamento procurando o que seria. A certa altura tudo se tornou mais claro! Voltou a pegar nas chaves do carro e a sair. Foi um entra e sai das várias lojas! Como era possível! Tudo parecia tão certo e agora tinha que faltar algo! António já estava impaciente. Entrou em nova loja.
- Só me faltava mais esta! Agora a loja está vazia!
            O seu nervoso já lhe fazia saltar as palavras em voz alta. Enquanto não aparecia ninguém foi observando os artigos em exposição. Muitas peças de belíssima qualidade e não encontrava o que procurava! Tinha sua ideia fixa no artigo que queria e não se contentaria com menos que isso.
- Então o que deseja?...
            Finalmente, pensou António, voltando-se em direcção à voz que a ele se dirigia. Explicou cuidadosamente o que pretendia e mostrou o seu desconsolo em verificar que não tinham artigos daquele género em exposição.
- Espere um pouco, vou ver se tenho alguma coisa assim lá dentro.
            Uma luz de esperança acendeu-se. Depois de horas à procura, pela primeira vez algum alento surgiu nas palavras do vendedor. A espera adensava-se e o homem que não surgia de regresso. A espera de António começava a dar lugar a uma impaciência crescente. Já António tinha percorrido quilómetros de um lado para o outro quando avistou as cortinas a movimentarem-se. O vendedor trazia na mão uma pequena caixa empoeirada.
- Aqui está! Penso que seja isto que deseja.
            Cuidadosamente o senhor tirou o artigo do interior da caixa, os olhos de António brilharam mais que todas as luzes da loja. Finalmente toda a busca tinha sido recompensada e tinha encontrado o artigo desejado.
            As horas voavam a um ritmo alucinante, os ponteiros do relógio pareciam não conseguir acompanhar a sua correria.
            Estava na hora de começar a preparar o jantar! António dirigiu-se à cozinha, colocou o seu avental e arregaçou as suas mangas. Antes de começar, desenhou tudo o que tinha a fazer até estar pronto. O dia tinha passado a correr, entre compras e outros afazeres António tinha tido um dia muito atarefado mas agora a sua concentração era total.
            Tudo corria de acordo com os planos que tinha feito antes de começar e os prazos de tempo estavam a ser respeitados. O jantar não teria atrasos, António na aceitava que se pudesse atrasar. O seu olfacto dava-lhe a aprovação de que estaria a ficar bom, não provou o cozinhado. Era tempo de acrescentar o ingrediente secreto. Em cada prato que cozinhava, António tinha sempre que colocar o seu toque pessoal, fosse um ingrediente diferente, uma erva aromática ou outro qualquer condimento. Pela última vez lançou um olhar sobre o jantar e fechou a porta do forno.
            A hora aproximava-se. Dez minutos antes da hora a campainha tocava. António sabia quem era, mesmo sem precisar de perguntar. Estava tudo pronto, a mesa posta, já tinha tomado banho, cortado a barba, colocado um aftershave bem perfumado. Agora era hora de abrir a porta.
            Maria subia as escadas com passos majestosos, os seus longos cabelos negros descaíam sobre o seu ombro esquerdo. Aquele top vermelho constatava de forma magnífica com o seu cabelo. António à porta do seu apartamento observava aquele sonho de mulher dirigindo-se para a si.
- Estás linda! Melhor tu és linda!
- És um exagerado.
            Os dois abraçaram-se, de seguida dos seus lábios tocaram-se, acariciaram-se, de maneira intensa e única. Os olhos tocaram-se e observaram a alma um do outro.
- Cheira muito bem. Então chef o que vai ser o jantar?
- Segredo, está quase pronto. Deixa-me mostrar-te a minha casa. Só não podes ir à cozinha.
            António mostrou o seu apartamento a Maria, era a sua primeira visita. Quando passaram pela cozinha puxou-a num passo de dança para não a deixar entrar e dirigiram-se para a sala.
- Muito bem, até a mesa já está posta.
- Sim, o vinho já respira e daqui a pouco poderemos jantar.
            Os dois sentaram-se no sofá. Maria observava o espaço que a envolvia.
- Ena! Tantos troféus! – exclamou.
- Já viste, um campeão! – disse António enquanto se ria.
            Levantou-se e dirigiu-se à mesa. Colocou um pouco de vinho nos copos e dirigiu-se para junto de Maria. Enquanto entregava o copo sorriu.
- Porque te ris?- inquiriu Maria.
- Se soubesses a história destes copos- retorquiu António.
            Dito isto, António contou como tinha sido a sua busca por aqueles copos de pé alto e de balão.
- Tu és incrível, fizeste tudo isso?
- É verdade, se quiseres um dia destes apresento-te o salvador que me conseguiu estes copos.
- Tonto! O importante é estarmos juntos, os copos são meros acessórios!
            António tinha a plena consciência disso, mas naquela noite para além de estar na melhor companhia do universo, queria também que não faltasse nenhum adereço.
- Jantamos? perguntou António.
- Já vamos, temos a noite inteira para nós, ou estás com pressa?
- Não! A noite é mesmo ainda uma criança.
            Os dois brindaram à noite eu tinham pela frente e ao dia de amanhã. Ambos detestavam falar de futuro, apenas do presente e no máximo do dia seguinte.
            Sentados à mesa de olhos mergulhados no olhar um do outro, sem que mais nada interessasse.
- Então o chef está aprovado?
            Era uma pergunta de formalidade, quer António quer Maria estavam com mais dedicação um ao outro do que ao jantar. Mas Maria surpreendeu na sua resposta.
- Tem um sabor especial, o que é?
            António nem se tinha apercebido do seu toque no prato cozinhado, mas Maria tinha logo percepcionado.
- É o toque especial do chef, não pode ser revelado.
            O primeiro jantar juntos ficou registado para ambos, António tinha a sua Maria ali tão perto e nesse instante começou a sonhar acordado.

(Continua)

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