domingo, 14 de outubro de 2012

Diário de um apaixonado - O desconhecido




Aquela sexta feira não lhe saía da cabeça, todo o fim de semana reviveu cada instante daquela noite. Tinha saído de casa com as amigas para se divertir e a noite tinha terminado num abraço a um desconhecido. Maria ia a caminho do seu trabalho e ainda a pensar no que havia vivido e quem seria aquele António que de uma forma tão diferente a tinha tocado no seu interior.
- Hoje vais muito calada e distraída!- exclamou a Luísa.
- Estava aqui ainda a pensar na noite de sexta.- retorquiu Maria.
Luísa era uma colega de trabalho com quem dividia a boleia, a vida não estava fácil e se podia gastar menos era de aproveitar. Com este esquema de boleias, Luísa e Maria tornaram-se grandes amigas.
- Então, então conta lá o que teve a noite de sexta?
Luísa tinha ficado em casa nessa noite, sintomas gripais tinham-na retido e não sabia ainda o que se tinha passado.
- Oh! Se calhar não foi nada de especial. Talvez tenha sido só uma impressão minha!
- Ai! Conta de uma vez que estou a ficar ainda mais curiosa, e não poupes nos pormenores.
Maria contou então à sua amiga onde tinha ido e o que tinha sentido em relação àquele desconhecido de nome António. Estava Maria a descrever o abraço perfeito que tinham dado quando foi interrompida pelo toque do seu telemóvel. Pegou no telemóvel e leu a mensagem recebida «Bom dia, espero que o fim de semana tenha sido bom. Desejo-te um bom dia de trabalho. Ass. Desconhecido». Sem dar por isso Maria voltou a ler a mensagem outra vez, mas desta vez sem se aperceber fê-lo em voz alta.
- Uhm! Desconhecido, pois, pois! Conta-me lá outra vez essa história. 
A cabeça de Maria estava a mil! Seria o António? Como tinha conseguido o seu número? Era perguntas que lhe corriam o pensamento e a um ritmo alucinante e desenfreado.
- Foi como te disse! Esta mensagem não sei de quem é. Pode ser alguma brincadeira.
- Vais responder?
- Não, claro que não!
Dito isto arrumou o telemóvel na mala e saiu do carro. Tinham chegado ao hospital. Maria era enfermeira no hospital de Luz. Foram vestir as fardas e picaram o ponto. Maria continuava a pensar em tudo o que estava a viver e no que se tinha passado. As perguntas que a tinham assaltado no carro continuavam o combate no seu interior.
- Então já lhe respondeste?- perguntou Luísa numa das vezes que se cruzou com Maria num dos corredores.
- Não! Já te tinha dito que não vou responder.
O turno daquele dia parecia nunca mais ter fim. Sem que se cruzava com a sua amiga ela insistia com a mesma pergunta. Maria dava sempre a mesma resposta. Contudo, a verdade é que crescia nela uma vontade imensa e inexplicável de dar resposta àquela mensagem, àquela provocação.
As duas amigas sentaram-se juntas um pouco durante a hora de almoço. Luísa procurava na amiga saber o que ela sentia e se ia responder.
- Ok! Vou dar uma resposta.
Mas agora o que escrever? A quem estava afinal a escrever? Perguntas e mais perguntas que de novo a assaltavam. Por fim decidiu-se «Olá boa tarde. O dia vai correndo bem. Ass. Desconhecida»
- Tu és mazinha! Podias ser um pouco mais macia.
Maria sabia que a amiga até podia ter alguma razão, mas a realidade é que não tinha a certeza para quem estava a escrever e como tal devia ter algum cuidado. Ainda o pensamento corria na sua cabeça, já tinha escrito a mensagem e enviado.
- Pronto, satisfeita?
Luísa não respondeu, mas Maria sentia dentro de si uma brisa de satisfação por ter respondido àquela mensagem misteriosa. Ainda apreciava o momento e ouviu de novo o toque do telemóvel. No ecrã aparecia «Olá Maria, tu não és uma desconhecida. Agora o meu dia ficou muito melhor. Ass. Desconhecido».
- Mau! Então só pode estar a brincar comigo!
- Então o que se passou? O que diz a mensagem? É ele de novo?
Maria estava agora a ferver interiormente. Segunda mensagem e não se identifica e continua a brincar comigo, pensou! Maria leu a mensagem em voz alta para a amiga.
- Então e agora Maria o que vais fazer?
Pois, aí estava uma questão que Maria ponderava! 
- Agora não vou mesmo responder!
Eram horas de retomar o trabalho e esfriar a cabeça os seus doentes mereciam toda a sua atenção e cuidado. Nos tempos mortos as mesmas questões prendiam-lhe o pensamento. A tarde parecia correr mais rápido que a manhã e quase sem dar por ela o turno estava terminado. As duas amigas encontravam-se de novo no vestiário e prontas para saírem rumo a casa.
Enquanto punha o carro a trabalhar Luísa perguntou:
- Ainda não disse mais nada? E tu já respondeste alguma coisa?
- Não e não!
- Estás mal disposta?!
- O que achas? Alguém apanhou o meu número de telemóvel e acontece isto, como queres que esteja.
- Provavelmente será o teu António! Não te inquietes!
Maria desejava que fosse, mas mesmo assim sentia-se furiosa com ele. A viagem para casa foi muito mais silenciosa.
- Obrigado Luísa, até amanhã.
- Xau, depois de houver mudanças ou novidades diz.
Maria ia agora sozinha até sua casa, a viagem era bem mais curta. 
Finalmente em casa! Maria dirigiu-se à casa de banho, tinha decidido durante a viagem que iria tomar um belo banho de espuma para relaxar e espantar todas as inquietações do dia. De novo o telemóvel a tocar, no ecrã «Olá Maria, desculpa! Devia ter dito quem era à mais tempo. Queria fazer-te uma surpresa. Ass. António». O coração de Maria bateu mais forte, estava feliz por ser António, mas ainda sentia aquela fúria por ele ter andado a brincar.

(continua)

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